Crônicas

Um beijo ardente

O empresário e a jovem secretária amante beijam-se ardentemente no quarto de luxo de um hotel evidentemente de luxo também.  Findo o beijo, ele leva as mãos à boca, sentindo algo estranho. Que foi, ela diz, não gostou? Ele corre pro banheiro, olha-se no espelho, abre a boca e lá está: um vão, uma janela, onde deveria estar um dente, um pré-molar tipo ostentação, de ouro 24k! 

Assustado, sempre protegendo a boca, corre de volta pro quarto, abaixa-se, procura no chão, embaixo da cama, debaixo dos lençóis… Que foi?, pergunta de novo a jovem secretária amante. Os dois se abaixam pra procurar juntos. Em vão. Ele tem um insight mesmo sem saber o que isso significa, e se pergunta: será? 

Que foi?, ela quer saber outra vez de novo. Não é possível, ela diz depois de ele contar. Será? 

Difícil seria explicar pra esposa, chegando o empresário às 2 da matina, sem um dente – e de ouro 24k! Caiu na rua, no bueiro, caiu na privada, um assaltante… ela, a esposa, não engoliria. Sua vida, a dele, viraria um inferno.

Abriu o jogo: minha jovem secretária, hã, amante, hã, engoliu. 

Seu dente?!, exclama a esposa estupefata. 

De ouro 24k, ele responde embaraçado.

Pediu perdão. Era íntegro. Momento de fraqueza. Mil promessas. Amava a esposa. Como a ninguém. 

Inútil, em vão, outro vão. A vida dele virou um inferno. 

 A esposa processou a amante: “Garimpo ilegal, além do mais!. Quero o dente – o pré-molar de ouro 24k! – de volta. Custe o que custar!”. 

Não pelo valor, poderiam comprar uma dentadura inteira de ouro 24k. É questão de honra!, afirmou a esposa, peremptoriamente.

 Processo de rico corre mais rápido que entregador de pizza. Contra pobre, é quase instantâneo. O juiz deu 24 horas pra jovem secretária amante desengolir o dente. Métodos, ele disse, existem aos magotes – juiz gosta de enxundiar o verbo.

Sentença cumprida, o dente foi devolvido são e salvo. A esposa guardou o agora suvenir no porta-joias. A essa altura o empresário já tinha reposto o dente, dessa vez mais modesto, de acrílico. Até porque, obviamente, um dente que passou pelo que passou o pré-molar de ouro 24k, entrando por onde entrou, saindo por onde saiu, quem teria coragem de usar?

O beijo da jovem ex-secretária ex-amante marcou pra sempre, como uma nódoa de cajú, o cuore do empresário. 

A esposa passou o resto da vida conjugal tentando um beijo daquele pra agradar o marido. Em vão. A vida toda arrancou dinheiro dele, mas nunca conseguiu arrancar sequer um incisivo.

O caso ficou conhecido como O Beijo de Lingote. A jovem ex-secretária ex-amante, ganhou fama como A-Garimpeira-do-Pré-molar-de-Ouro-24k. Coitada.

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Vasqs

Vasqs nasceu em São Paulo. Construiu sua trajetória no humor gráfico e na imprensa brasileira. Escreveu e ilustrou para o Pasquim-SP e foi colunista do Jornal da Tarde, de O Estado de S. Paulo, atuando como redator e ilustrador. Durante 12 anos, emprestou seu olhar e seu traço às páginas do Diário Popular-SP. Também colaborou, ainda que brevemente, com O Pasquim, O Pasquim-21, Jornal do Brasil e as revistas Bundas, Revista do Faustão e Mad, nestas últimas também como redator. No caminho, ilustrou livros infantis e didáticos — porque até o aprendizado fica mais divertido quando ganha desenho. É autor de Ostras ao Vento – humor disposto a nada (edição própria, 2011) e Papo Gaio de Maritacas – humor que vai direto às… reticências (Editora ConVerso, 2025).

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